Ps: Todos os textos encontram-se registrados na biblioteca nacional.

domingo, 6 de agosto de 2017

Soneto

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

 V. M.

domingo, 28 de maio de 2017


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
preferiram (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

("Os Ombros Suportam o Mundo", C.D.A.)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Réquiem


Eu, com minhas reticências...
Intrépido talvez, mas cético nem sempre.
Leva tanto tempo para ficarmos comum ao que nos convém.

Você compreende o que é olhar distante, além, e ao mesmo
Tempo estar preso a terra?

Algumas verdades cravaram-se na carne, no sangue, como esquecê-las?
Se, no entanto, aspiramos ao eterno... irredutíveis!

As tecnologias continuam caminhando em nome do “progresso”.
Vida privada nos jornais, revistas, internet... privada mesmo é a dor,
Na sua dura batalha de revelação e insight. Segredos inconvenientes.

Mas sorrimos!
É preciso compreender a finitude-eterna das coisas, um
Homem doa-se numa praça, ao meio dia, como em qualquer
Lugar do mundo.

Saudamos a família!
A família é, pois, uma disposição de móveis, cômodos, linhas
De expressão, semblantes. São portas, janelas, camas, caixas
Esquecidas, cachorro latindo. Tudo banhado de silêncios,
amores e desejos.

Logo afanamos o silêncio: pedimos carnes, bebidas, revoluções, manifestos
e arte. Que venha a palavra, o desejo, o decreto, o golpe.

Certas partes de nós reclamam, uma viaja ao norte, outra arde de desejo,
de amor. Cada instante é diferente e cada homem é diferente. A multidão
também pede seu tributo...

Eu sei que ela caminha ao meu lado. Ela é minha irmã, minha mãe, amante,
primeira namorada... olhar de ternura, um sorriso gentil. É bom saber que somos iguais,
uma substância única. [na arte e no sono]. 

(Felipe Pöe)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Cinema de Tudo


O problema é a saudade
Como o desabrochar de uma flor
Este também é um momento de vida.

A poesia é uma flecha certeira, acerta no alvo
A poesia as vezes é cruel, vista do alto.
Eu não acredito que você venha tão perto
só para conferir seu tesouro...

Memórias de infância, carros parados na chuva,contai
Cinzas de incensos,tocos de vela
                                                  [contai:


A musa é mais do que um símbolo!
Eu sei! É difícil admitir que o mal existe,
e que ele também se presta a um bem maior.

Ode a todas as semelhanças!

Semelhância com todos os assassinos, todos os jogadores, todos os bêbados, todos os palhaços noturnos,todos os párias faladores, todos esses cantores irriquietos.

É preciso procurar por apoios.
Um pé na metáfora, e outro no real,
E vangloriar suas realidades
pois a realidade da fantasia é tão real
quanto a própria realidade.

As histórias contiuam: juventude perdida,
a garota que deixou o lar
Afinal de tudo ficou um pouco.

Eu adiei o golpe por tanto tempo
vai ver esperava-o, com um personagem
numa tragédia qualquer.

Para que escrever? Mas paro e penso
Deve haver um caminho... já que é
nos entreatos que a vida avança.

A razão caiu. E o que sobrou:
A fantasia! Que é o que permanece
de mais selvagem no homem.

Viajante ocular das ruas, dos semblantes,
Da beleza crepuscular ao torso feminino.
Da retina aquilínea,manipuladora de luz
e sombra, eficaz, rasante pousa nos olhos
e bate vôo.

Você está tão distante de mim...
mas você vai me achar! num canto
de um bar qualquer, a meia luz
observando, me exercitando, cinema de tudo!

Felipe Pöe

(poema pertencente ao livro "Esfinge", editora: Homero, São Paulo, Agebook)

sábado, 31 de outubro de 2015

Mala de Viagem

Estou no quarto, a mala posta na cama.
O que levar de bagagem? O que me pesa?
Seus retratos, roupas, aparelhos?
Dois cadernos enrolados e nada mais.
Quer saber o que contém? Minhas pequenas antologias místicas...
Nas mãos de outrem não pesaria mais de um quilo, certamente!
Mas nas minhas pesa a coluna, cansa os olhos, acelera o pulso.
Esses papéis... filtram-se nas paredes, nas janelas, nas plantas.
Motor imóvel, possuem luz e movimentos próprios. Deixa-los para trás
seria como deixar a mim mesmo, perder-se no meio do caos...
Não como um braço ou uma perna, mas uma parte vital de mim,
Um amuleto biológico de rubra cor! Não posso deixá-los. Eu os abraço e
me completo, agora e sempre! Rumo a estrada que conduz a todos os caminhos...
Estou saindo de viagem, levando dois cadernos enrolados, com papéis e seus retratos e nada mais.

(Felipe Pöe)


(poema pertencente ao livro "Esfinge", editora: Homero, São Paulo, Agebook)

sábado, 19 de abril de 2014

Sobre a Dialética de Uma Flor


Nesses dias de alquimia ousei perguntar
sobre alguns mistérios inerentes a beleza:
Ex: O que faz uma flor de outono ser tão bela?
Num dia ensolarado está tão vigorante e erguida

E no dia seguinte murcha, sem vida... Como as fases
da lua e da mulher: nova, minguante, linda e radiante.
Mas neste espaço de tempo, a beleza se faz intensa!

Permuta de luz em sublime! Nele cabe toda uma vida,
Uma eternidade, um riso, uma lembrança de saudade.
[Nascer, botão, flor intensa, murchar e morrer...]

Mas há certo instante, assim como na vida
Onde a beleza é efêmera e universal, simultaneamente.
E o poeta, este esteta, necrológico do saber
Encontra-se salvo e perdido, ao mesmo tempo.

Num dia de chuva e trânsito caótico, não sei
em que fase estavas cotidiana musa, mas
Absorto desta beleza de você, foi como música...

(Felipe Pöe)

(poema pertencente ao livro "Esfinge", editora: Homero, São Paulo, Agebook)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Crônica de um observador Anacrônico


- Hã? Oi? Ah, são 07h40min e a saída é logo ali! Responde-me a garota vibrada no seu tablets, de última geração, na estação de Jabaquara, quando me dirigia em direção a manada dos bois na estação da luz, pela manhã.
Uma senhora de idade do meu lado se contorce de dor, e se enfurece ao ver um garoto viajar no seu ipod nano, sentado bem no banco sinalizado para idosos, do seu lado outro garoto se diverte com a leitura de Shakespeare nos seus Ipads (Pasmei!), coçando a cabeça e se irritando com o som estrepitoso de um rádio de funk, do outro lado da plataforma impedindo, assim, sua refeição intelectual matutina...
Enquanto isso, no fundo do vagão, a garota que eu fito não tira os olhos de seu Note Book Apple, imersa num mundo de moda e beleza...

-Será que nesse mundo de relações líquidas, eletrônicas e digitais é impossível ser poeta?


(Felipe Pöe)

(poema pertencente ao livro "Esfinge", editora: Homero, São Paulo, Agebook)

domingo, 30 de outubro de 2011

Caminhos II


Se quer chegar rápido, ande sozinho...
Se quer chegar longe, andemos juntos!

(Felipe Pöe)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Scribere?


Haveria outra finalidade que não expor a dor para fora?
Uma angustação inexplicável, um “não sei quê”,
Que atropela! Uma sensação de afogamento sem água...
Pedra rolando no desfiladeiro?

Não! Talvez nunca o saberei,
Semelhante seria perguntar:
-Haveria resposta sobre o céu ser azul? Ou
Por que os ventos parecem movimentar-se com uma cadência rítmica?

Nas festas de confraternização ela está sempre comigo,
Nas reuniões de família, nos passeios domingo à tarde,
Nas caminhadas crepusculares, ela, a dor está sempre junto! Como um amigo!

Não sei sob qual vereda ela me seduziu, com sua beleza de Vênus...
Só sei que é amiga fiel e está sempre comigo! Recebam meus amigos:
É toda minha dor que entrego aos seus júbilos...

(Felipe Pöe)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Máxima!



Que fraco são os poderes das palavras e dos aforismos!
Levam tanto tempo para serem concebidos e ponderados, de repente vem uma imagem ou ação, um suspiro ou beijo (...) e destrói mais de dois séculos de filosofia germinados na mente do animal bípede!!  Medo!

(Felipe Pöe)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Grito

Acordou, vislumbrou uma luz fraca que mesmo assim lhe queimava os olhos, logo se acostumou e percebeu que olhava para o céu infinito da noite, à luz era da lua, cheia e gigantesca, levantou o suficiente para sentar-se, estava à beira de um precipício.

Olhando ao redor, tentou lembrar o que havia ocorrido, descobriu, por acaso, que nem sabia onde estava, nem como chegou ali e pior, não sabia quem era! Fechou os olhos e tentou se lembrar ao mesmo tempo em que tentou se equilibrar em pernas doloridas de quem havia levado uma surra.

“Quem sou eu?” Pergunta pertinente de quem acorda com três moedas no bolso, de sapado, calça e camisa social em meio a uma vastidão campestre a beira de um precipício e com uma repentina dor de cabeça! “QUEM SOU EU?”

Três palavras que ecoaram pela noite, três palavras que juntas representavam muito mais do que uma interrogação casual ou espontânea de quem acorda atordoado e confuso de um pesadelo. Essas três palavras representam a certeza de que a vida, mesmo que nem se lembre qual, nunca mais será a mesma... Um grito para o mundo de quem acabara de nascer que buscava um nome, um título, uma alcunha nesse novo mundo que sabia, iria desbravar.

Mas no momento, seu estomago dizia para sair dali, e para onde? Bem, as luzes distantes indicavam uma vida urbana, da qual provavelmente seu passado pertencia, e chegou à hora de regressar. Como um guerreiro que volta da batalha, ergueu a cabeça e rumou para a cidade, passo a passo, morro a baixo, as lembranças invadiram sua mente, agora sabia quem era...

Sim, agora sabia quem era o grande herói dessa diáspora! Chamava-se João do Nascimento! Visionário e funcionário público.

(Crimson)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Roda da Fortuna





50 milhões de reais na mega-sena,
Ser jogador de futebol com uma renda de 500 mil mensais ou, viver o sonho de ser rock star e viajar o mundo, fazendo as multidões vibrarem em pleno êxtase (...)
curtindo as férias em hiates luxuosos, com a melhor das atrizes da novela das oito, vivendo esse sonho, que chamam de "felicidade"...
- A única coisa que busco é uma transmutação!  Será que é pedir demais?
  
(Felipe Pöe)

(poema pertencente ao livro "Esfinge", editora: Homero, São Paulo, Agebook)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ápologo Nietzcheano!

O Martelo Fala

 
– Por que és tão duro? – perguntou certa vez o carvão ao diamante. – Acaso não somos parentes próximos?!
– Porque sois tão moles? Ó meus irmãos, assim eu vos pergunto: Acaso não sois vós meus irmãos? Porque tão moles, tão retraídos e abatidos? E porque tanta negação e abnegação em vossos corações? Tão pouco destino de vossos olhares?
E se vós não quereis ser destino e inexoráveis, como podereis vencer comigo?
E se vossa dureza não quer brilhar, cortar e fender, como podereis criar comigo?
Pois os modeladores são duros.
E dever-vos-ia parecer ventura colocar vossas mãos sobre milênios, como sobre a cera mole.
Ventura escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze – mais duros que o bronze, mais nobres que o bronze. Somente o mais nobre é totalmente duro.
Ó, meus irmãos! Apresento a vós esta nova tábua: Tornai-vos duros!*

*De Assim Falava Zaratustra, Parte 3 "Das antigas e das novas tábuas", 29.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

AS VOCAÇÕES


NUM BELO JARDIM donde os raios de um sol de outono pareciam ter pena de partir, sob um céu já esverdinhado onde flutuavam nuvens de ouro como continentes em viagem, quatro belas crianças, quatro rapazinhos, certamente cansados de brincar, conversavam.
*
Dizia um deles:
*
- Ontem levaram-me ao teatro. Em palácios grandes e tristes, ao fundo dos quais se avista o mar e o céu, homens e mulheres, sérios e também tristes, porém muito mais belos e muito mais bem vestidos que esses que vemos por toda parte, falam com uma voz cantante. Ameaçam-me, imploram, afligem-se, e de vez em quando apóiam a mão num punhal preso à cinta. Ah! é muito bonito. As mulheres são muito mais belas e muito maiores do que as que nos vêm ver em nossas casas, e, embora os grandes olhos profundos e as faces afogueadas lhes dêem um ar terrível, é impossível deixar de amá-las. A gente tem medo, tem vontade de chorar, e no entanto sente-se contente... Depois, o que é mais estranho, aquilo nos dá vontade de estar vestidos do mesmo modo, de dizer e fazer as mesmas coisas, e de falar com a mesma voz...
*
Um dos quatro meninos, que desde alguns segundos antes já não escutava as palavras do companheiro e observava com extraordinária fixidez não sei que ponto do céu, disse de repente:
*
- Olhem! olhem ali...! Estão vendo-o? Ele está sentado naquela nuvenzinha isolada, naquela nuvenzinha cor de fogo, que vai caminhando devagar. Ele, também, parece estar olhando para nós.
*
- Mas quem? - perguntaram os outros.
*
- Deus! - respondeu o garoto em um tom de absoluta convicção. - Ah! já vai muito longe; agora vocês não poderão vê-lo mais. Naturalmente ele viaja, para visitar todos os países. Olhem, ele vai pastar por detrás daquela fileira de árvores que se avista quase no horizonte... e agora está descendo atrás do campanário... Ah! já não se vê!
*
E por longo tempo o menino permaneceu voltado na mesma direção, fixando na linha que separa a Terra do Céu uns olhos em que brilhava uma inexprimível expressão de êxtase e de pesar.
*
- Isso é um tolo, lá com o seu Deus, que só ele pode perceber! - disse então o terceiro, cuja minúscula figura era assinalada por uma vivacidade e vitalidade singulares. - Pois eu vou-lhes contar como mar uma vivacidade uma coisa que nunca se deu com vocês, e que é um pouco mais interessante do que esse teatro e essas nuvens. Há poucos dias, meus pais me levaram consigo a viajar, e, como na estalagem onde pousamos não havia camas suficientes para todos nós, ficou resolvido que eu dormiria junto com a minha governanta.
*
Chamou os camaradas para mais perto de si, e falou em voz baixa:
*
- Dá uma sensação esquisita - sabem? - a gente não estar deitado sozinho e ver-se numa cama com a governanta, no escuro. Como não tinha sono, comecei, por distração, enquanto ela dormia, a passar a mão nos braços dela, no pescoço e nos ombro. Ela tem os braços e o pescoço muito mais cheios do que todas as outras mulheres, e uma pele tão macia, tão macia, que até parece papel de carta ou papel de seda. Era tão agradável aquilo que eu teria continuado por muito tempo se não sentisse medo - medo de acordá-la, e, além disso, medo de não sei quê. Depois enterrei a cabeça nos cabelos dela, que lhe caíam pelas costas, espessos como uma juba, e eles cheiravam tanto, podem crer, como cheiram, nesta horas, as flores do jardim. Quando vocês tiverem ocasião, experimentem fazer o que eu fiz, e vão ver!
*
Contando o seu caso, o jovem autor dessa prodigiosa revelação tinha os olhos arregalados por uma espécie de assombro daquilo que ainda estava sentindo; e os raios do poente, deslizando através dos ruivos anéis de sua desgrenhada cabeleira, acendiam-lhes uma como auréola sulfúrea de paixão. Era fácil adivinhar que aquele não passaria a vida a procurar a Divindade das nuvens, e a encontraria com frequência noutros lugares.
*
Por fim, o quarto falou:
*
- Vocês sabem que eu não me divirto em casa; não me levam nunca ao teatro; meu tutor é muito avarento. Deus não se ocupa comigo e com o meu tédio, e eu não tenho uma governanta bonita para me acariciar. Já por diversas vezes tenho pensado que o meu prazer seria andar sempre, sempre, direto, sem saber para onde, sem que ninguém se preocupasse com isso, e ver sempre para onde, sem que ninguém se preocupasse com isso, e ver sempre países novos. Nunca me sinto bem em parte alguma, e acredito sempre que estaria melhor em outra parte que não aquela onde estou. Pois bem, eu vi, na última feira da cidade vizinha, três homens que vivem como eu gostaria de viver. Vocês ainda não prestaram atenção a essa espécie de gente. Eles eram altos, quase negros, e, embora em trapos, mostravam-se muito soberbos, com ar de quem não precisa de ninguém. Tocavam, e seus grandes olhos sombrios se tornaram muito brilhantes durante a música; música tão surpreendente que dá vontade ora de dançar, ora de chorar, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo; a gente ficaria como louca se demorasse muito a escutá-los. Um deles, arrastando o arco sobre o violino, parecia contar uma queixa, e outro, fazendo saltitar seu martelinho pelas cordas de um pequeno teclado suspenso ao pescoço por uma correia, dava a impressão de rir da mágoa do vizinho, ao passo que o terceiro atritava de quando em quando os seus címbalos com violência extraordinária. Estavam tão contentes de si mesmos que continuaram a tocar sua música de selvagens, mesmo depois que a multidão se dispersou. Afinal, apanharam seus soldos, puseram a bagagem às costas, e partiram. Desejando saber onde moravam, segui-os de longe, até à entrada da floresta, onde compreendi - só então - que eles não moravam em parte alguma. Ouvi um deles dizer: - "É preciso armar a tenda?" - "Não! não! - respondeu o outro. - Com uma noite tão bonita!" O terceiro dizia, contando o apurado: - "Aquela gente não sente a música, e as mulheres dançam como ursos. Felizmente, antes de um mês estaremos na Áustria, onde encontraremos um povo mais estimável." - "Talvez fosse melhor irmos para a Espanha: o outono vem chegando; fujamos antes das chuvas e não molhemos senão a garganta" - sugeriu um dos outros dois. Guardei tudo, como vocês estão vendo. Depois eles beberam cada um uma xícara de aguardente, e adormeceram, com o rosto voltado para as estrelas. A princípio eu sentira desejo de lhes pedir que me levassem consigo e me ensinassem a tocar os seus instrumentos; mas não tive coragem, sem dúvida porque é sempre muito difícil a gente se decidir a qualquer coisa, e também porque eu temia ser apanhado antes de me achar fora da França.
*
O ar pouco interessado dos três outros companheiros fez-se pensar que aquele era já um incompreendido. Fitava-o, atento: havia nos seus olhos e na sua frente esse não sei quê de precocemente fatal que em geral afasta a simpatia, e que, inexplicavelmente, excitava a minha, de tal maneira que em dado instante me veio a idéia de que eu podia ter um irmão desconhecido de mim mesmo.
*
O Sol tinha-se posto. Reinava agora a noite solene. Os meninos separam-se, indo cada um deles, sem o saber, ao léu das circunstâncias e dos acasos, amadurecer o seu destino, escandalizar o próximo e gravitar para a glória ou para a desonra.

(Charles Baudelaire)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Conclusão?

Uma Difícil Definição!

 
Uma análise do poema "Conclusão" de Carlos Drummond de Andrade

Conclusão


  "Os impactos de amor não são poesia                                 
   (tentaram ser: aspiração noturna).                                      
   A memória infantil e o outono pobre                                 
   vazam no verso de nossa urna diurna.                               

   Que é poesia, o belo? Não é poesia,                                
   e o que não é poesia não tem fala.                                    
   Nem o mistério em si nem velhos nomes                           
   poesia são: coxa, fúria, cabala.                                         

   Então, desanimamos. Adeus, tudo!                                  
   A mala pronta, o corpo desprendido,                           
   resta a alegria de estar só, e mudo.                                

   De que se formam nossos poemas? Onde?                        
   Que sonho envenenado lhes responde,                              
   se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?"             

Este poema de Carlos Drummond de Andrade foi publicado no livro Fazendeiro do Ar & Poesia Até Agora (1953), o Drummond não mais tão "público", como na época da Rosa do Povo (1945), fase de mais intensa produção do poeta, época de esperança que nasceu sob a resistência do mundo livre à fúria nazi-fascista, mas que se retraiu com o advento da guerra-fria. A nova civilização que se forma, fortemente amarrada ao neocapitalismo, à tecnologia, às ditaduras de toda sorte, ressoou dura e secamente no artista Carlos Drummond de Andrade, que volta, com frequência, à acidez desenganada dos primeiros versos, como veremos mais à frente numa análise mais detalhada. (Cf. Bosi, 492)
Escrito sob a forma de soneto, fôrma poética inventada durante a idade média, no século XIII. Composto de 14 versos, divididos em 4 estrofes, 2 quartetos e 2 tercetos e com uma divisão semântica de: introdução, desenvolvimento e conclusão, O poema aparentemente carrega significados muito amplos, mas uma leitura mais atenta mostrará que a simbologia intrínseca no poema é bem mais complexa do que aparenta. Observando a pontuação, percebemos que 11 dos 14 versos são pontuados no fim, o eu - lírico não faz questão de muitas pausas, e deixa o pensamento correr livremente, existe muita perplexidade nas formas de pontos de interrogações, e apenas 1 verso termina com exclamação. Em relação às rimas, nota-se que tem pouca uniformidade sonora, salvo, acentuada repetição da palavra "poesia" nas 1° e 2° estrofes. As demais rimam assim: o primeiro verso da 1° estrofe rima com o 1° da segunda; o segundo verso da 1° estrofe com o quarto também da 1°; o segundo da 2° estrofe com o quarto da 2°; o primeiro da 3° com o último da 3° estrofe e o primeiro da última estrofe com o segundo. No mais, os 3° versos das três primeiras estrofes são soltos. Passando para uma análise da estrutura gramatical, nota-se que o ritmo apresenta uma forte recorrência do verbo "Ser": “é”, “não é”, “são”, frequente na maior parte do poema, demonstrando uma consciência do eu - lírico, na busca por uma definição da poesia, mas se no capítulo das pontuações, inferimos que existe muita perplexidade no poema, como pode coexistir essa dualidade Perplexidade X Consciência? Esta é a contradição, característica inerente à poesia, sobretudo, quando se busca uma definição para ela. Com efeito, é a idéia de perplexidade que mais aparece no poema, há um paralelismo no 1° dístico das 1° estrofe, 2° e 4° estrofes (versos 1, 2, 5, 6, 12, 13), o eu - lírico mantém a mesma idéia de pergunta: “O que é poesia?" (verso 5), a mesma idéia de perplexidade, de dúvida, há também paralelismos nos versos 3 e 7, ou seja, nem as reminiscências que vêm e vão na cabeça do poeta são poesia. No verso 8 o eu - lírico define: "poesia são: coxa, fúria, cabala", ou seja, a poesia pode surgir de qualquer coisa, da visão de uma coxa de mulher no cotidiano, da fúria, uma forte emoção, conseqüência do ressentimento do poeta, e cabala é: ciência o culta, privilégio para poucos, misticismo... e conclui no verso 9: “... desanimamos. Adeus, tudo.”.
Clara referência a outro trecho de sua obra:

"A poesia é incomunicável.
Fique quieto no seu canto.
Não ame."
               (1977; 41)

Nos versos 10 e 11 ainda diz: “... resta à alegria de estar só, e mudo.” (verso 11) Esta é a consequência do efeito da poesia, a poesia não é um simples deslumbramento, a poesia nos deixa mudo, irrequieto, torto pelos cantos.
Os versos 12 e 13 são parelhos aos primeiros dísticos das duas primeiras estrofes, já no verso 14 ele conclui: "se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?" Então o poeta é só um ressentido na sociedade? E o mais não vale nada? Não, o poeta tem um lugar privilegiado, ele possui uma sensibilidade mais aguçada, seu ressentimento não é um ressentimento qualquer, é um ressentimento que gera a fúria, que aliada a sua visão aguçada gera a matéria prima de sua poesia.
Voltando a dualidade: perplexidade X consciência, o poeta é um consciente da perplexidade da vida e traduz isso em palavras, poesia, em arte: esse pára-quedas que nos faz levitar diante das quedas conscientes e inconscientes que temos na vida...


Bibliografia:

Andrade, Carlos Drummond de. 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: J. Olympio, 8° ed., 1977.

Bosi, Alfredo.  História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2° ed., 1964.

(Felipe Pöe)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Embriagai-vos:


"É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos;
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha."

Charles Baudelaire

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Exposição de Giuseppe Veneziano Causa Polêmica!!

A arte sempre causa polêmica, aliás, a função do artista é causar essa polêmica, esse estranhamento no público em geral. O pintor Giuseppe Veneziano, já famoso por outras obras polêmicas, tal como: PREGIUDIZIO UNIVERSALE, está dando o que falar mais uma vez, com sua amostra "Declino del  Supereroe", ao retratar heróis em situações polêmicas, comprometedoras : contexto sexual, uso de drogas , suícidio....etc. As autoridades querem proibir a exposição.

Unlucky Heroes
Super Spider Cocaine

Wonder Woman's Intimacy II
Le proporzioni del Ragno
Spiderman Suicide
 Quem tiver mais interesse nas obras da amostra segue o link da página do artista: http://www.giuseppeveneziano.it/Super%20Love.html

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Brazilian Guitar Fuzz Bananas (2010)



Fruto das pesquisas de Joel Stones, e leia-se ai, alguns milhares de vinis, já que ele é dono de um sebo em Nova York especializada em música brasileira, Brazilian Guitar Fuzz Bananas, é muito mais do que uma simples coletânea, que resgata uma parte importantíssima da nossa história. Além das gravações serem quase todas raras e obscuras, foram todas restauradas e o disco que é duplo, ainda acompanha um encarte em português e inglês, com fotos em 3D. Artistas como Tony e Som Colorido, Banda De 7 Léguas, Ton & Sérgio, Ely, Com Os Falcões Reais, Maria Rossi, Fabio, Piry, Serguei, The Youngsters, etc...recebem agora seus devidos créditos, já que a maioria não são conhecidos nem por aqui...

 Brazilian Guitar Fuzz Bananas: tropicalista psychedelic masterpieces 1967-1976
A1. Célio Balona – Tema de Batman
A2. Loyce e Os Gnomos – Era uma nota de 50 cruzeiros
A3. The Youngsters – I Want To Be Your Man
A4. Serguei – Ourico
B1. Fábio – Lindo Sonho Delirante (L.S.D.)
B2. Tony e Som Colorido – O Carona
B3. 14 Bis – God Save The Queen
B4. Banda De 7 Léguas – Dia De Chuva
C1. Ton e Sérgio – Vou Sair do Cativeiro
C2. Ely – As Turbinas Estão Ligadas
C3. Os Falcões Reais – Ele Século XX
C4. Marisa Rossi – Cinturão de Fogo
D1. The Pops – Som Imaginário De Jimmi Hendrix
D2. Loyce E Os Gnomos – Que é Isso?
D3. Piry – Herói Moderno
D4. Mac Rybell – The Lantern


Vídeo:http://www.youtube.com/watch?v=MS8KPpW-748&feature=player_embedded
 Créditosdo link a cesar da comunidade Brazilian Nuggets! ouçam essa raridade!! Se gostarem postarei link para download!!

segue o link: http://hotfile.com/dl/31565566/d1a7b64/VA.Brazilian.Guitar.Fuzz.Bananas.2010.rar.html